O mercado brasileiro em meio à “crise da carne”

07/07/2017

Geral


Expectativa de perdas na exportação joga economia brasileira em novo capítulo de incertezas

O comércio internacional está cada vez menos dependente das tarifas (impostos) de importação e utilizando cada vez mais instrumentos não tarifários com objetivo de proteger seus cidadãos e suas empresas, não necessariamente nesta ordem, e mantendo a áurea de realizarem o comércio livremente.

Segundo Paulo Dutra Costantin, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), casos exemplares ocorrem com as barreiras fitossanitárias, que são utilizadas por qualquer país membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), visando proteger a vida e a saúde humana, animal e vegetal desde que cientificamente justificadas. Este é o principal instrumento utilizado para comércio de produtos in natura.

Em julho de 2016 o Brasil e os Estados Unidos celebraram acordo liberando, bilateralmente, o comércio de carne bovina in natura entre os dois países. A principal restrição a entrada da carne bovina brasileira nos Estados Unidos era a febre aftosa e a principal restrição a entrada da carne estadunidense no Brasil era a carne louca. Esse acordo possibilitou o aumento das exportações brasileiras, tanto para os Estados Unidos quanto para outros países, que têm neste último um parâmetro de certificação de qualidade. Excelente notícia para os produtores e exportadores brasileiros de carne bovina.

Os meses de março e junho de 2017 foram desastrosos para o setor produtor e exportador brasileiro de carne bovina. No dia 17 de março, a Polícia Federal Brasileira deflagrou a operação Carne Fraca, que afetou os principais frigoríficos brasileiros. O objetivo era evasão fiscal. No entanto, atingiu a área produtiva em que foram constatadas fraudes na qualidade do produto destinado ao consumidor final.

Para Nelson Roberto Furquim, também professor da UPM, “os rebanhos bovinos são suscetíveis a vários tipos de doenças que tanto podem afetar a produtividade quanto comprometer a qualidade da carne ofertada e comercializada. Consequentemente, com o aumento das relações comerciais internacionais, vários países passaram a impor exigências e adotar barreiras não tarifárias para importação do produto, com o intuito de proteger seus consumidores”.

Ainda segundo Furquim “A atividade pecuária e, em particular, as exportações de carne bovina têm um papel de destaque no setor agropecuário brasileiro. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, e isso representa uma parcela substancial das exportações totais do país, proporcionando milhões de empregos formais. ”

Paulo Dutra explica que, ao final do mês de julho, no dia 20, a China promoveu a abertura de seu mercado para os produtores dos Estados Unidos, o que pode reduzir a fatia do mercado chinês para o produtor brasileiro e, no dia 22, o Serviço de Inspeção e Segurança de Alimentos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos constatou a não conformidade dos padrões fitossanitários celebrados entre os dois países e baniu, temporariamente, a importação de carne bovina brasileira in natura.

“A qualidade e produtividade deste setor no Brasil, que foi conquistada ao longo de décadas de pesquisas e desenvolvimento, por instituições públicas e privadas, pode ser perdida rapidamente em decorrência de erros internos, verificados na última etapa de produção de algumas empresas que não mantiveram as especificações fitossanitárias acordadas, e da competição internacional em que os governantes promovem e defendem externamente as empresas de seus (eleitores) países”, completa o especialista.

A sociedade e o próprio setor devem cobrar daqueles que não cumpriram com suas obrigações que arquem com os custos de reconquistar a credibilidade, interna e externa, deste setor que é fundamental para a economia brasileira.